A menina e a doença

Hospitais muitas vezes possuem clientes fiéis, que vez ou outra sempre estão por lá e que os funcionários já conhecem seja de rosto, seja por nome. Parar ser mais específico, localizado em uma cidade no interior, com pouco mais de mil habitantes, era o qual a menina frequentava. Desde pequenininha a mãe entrava correndo aos prantos com ela desfalecida em seus braços. Durante os anos seguintes, essa cena de tornou frequente e comum, já sem espantar ninguém. Foram para a capital em busca de um diagnóstico e nada foi concluído.
“É o coração, todos dizem. Mas o que no coração?”
“É isso que não sabemos, senhora.”
A menina, por sua vez, amava fazer amizades, mas não amava sentir algo por elas. Muitas das vezes, preferia falar com si mesma em um espelho, pois seu reflexo respondia muito mais precisamente do que qualquer outro poderia. Com ele, ela aprendeu aritmética e linguagens avançada, até não conhecidas ainda. Porém, a mãe a obrigava a ir a escola e lá morava o problema.
Ela tentava não se envolver, mas sempre seu desejo não se realizava. Ela fez amizades mesmo com a eu do espelho dizendo para não fazer. Seu coração acelerava conforme conhecia determinada pessoa. Com alguns dias, novamente era atendida no pronto-socorro, para logo voltar a escola. Após uma dessas visitas ao hospital, voltou para a escola, participando de uma atividade em grupo em que teve que a realizar em dupla com um colega que não conhecia. O rapaz era sorridente e educado, enquanto produziam o que o professor pediu, ele se revelou agradável e gentil, fazendo com que o coração da menina acelerasse bastante. Logo mais, bateu um recorde, em três dias conversando, uma ambulância foi chamada, pois ela havia desmaiado no meio do pátio.
“Mãe, eu não quero mais isso. Por favor. Não me mande ir para a escola mais, não aguento tudo isso, eu não melhoro e não sei o que tenho, me dói tanto.”
Se nela doía, não há palavras para descrever como era para a mãe, seu sofrimento em colocar uma menina tão amada no mundo para não conseguir fazer nada para amenizar seu sofrimento.
Mesmo assim, a vida tinha que seguir, e por aquela crise ter sido tão forte, a menina ficou em casa alguns dias lar descansar e lá pode conversar mais com o reflexo.
“Eu sei o que que você tem.”
“Mas se você não é meu reflexo?”
“Sou, mas eu sou eu e você é você. Eu não tenho o mesmo problema que você tem.”
“E o que eu tenho?”
“Você tem alergia.”
“Alergia? Só isso? Alergia me deixa mal assim?”
“É.”
A menina ao voltar a estudar não falou com mais nenhuma pessoa, deve que tenho alergia de gente, pensava enquanto evitava quem quer que fosse. Olhava as outras meninas reunidas, risonhas em rodas de brincadeira, sentia afeto, gostaria de estar com elas.
“E por que você não está?”
“Pois tenho alergia delas.”
“Você tem alergia de que?”
“Alergia de gente, você mesma me falou que eu tenhi alergia, não se lembra mais?”
“Eu disse que tinha alergia, não disse que tinha alergia de gente.”
Decidiu que estava certa quanto a sua enfermidade, o que fez com quem acabasse passando semanas sem falar com qualquer um de seus colegas, para logo no final dos primeiros 40 dias seu coração falhar.
“Me diga sem rodeios. Tenho alergia a que?”
“Você quem me dirá. Você já sabe do que.”
A menina ficava louca com essa incógnita, e ao longo dos anos, as crises só pioraram, passando mais tempo sem o coração bater, levando mais tempo para de recuperar.
Na faculdade conheceu um rapaz elegante, e ambos simpatizaram um com o outro no mesmo instante, trocando olhares ao se verem e sorrisos em suas conversas. O coração da menina acelerava a cada momento mais, ela estava apaixonada. Ela não teve crises durante esse tempo, levando a crer que a paixão era a cura para sua alergia, quem sabe se não era definitiva.
Na noite do mesmo dia em que deram o primeiro beijo a menina acordou suada. O coração batia a mil, era como se quisesse sair do peito para bombear ainda mais forte. Escorregou para a frente do espelho, sem forças para caminhar, com as roupas pregadas no corpo e a respiração arfante.
“Não me pergunte novamente o que você já sabe.”
“Por favor! Por favor! Me diga. Eu não sei. Nunca soube! Eu preciso da cura, eu quero viver como uma pessoa normal ao lado dele.”
O reflexo levantou uma das mãos e tentou acariciar o rosto da menina.
“Sinto muito.”
“Por que?”
“Por que você se envenenou. Você sabia o que fazia mal. Sempre soube e mesmo assim colocou em risco nossas vidas. Mesmo eu não sendo você, eu existo por sua causa. Esse rapaz ajudou a se envenenar.”
“Ele nunca faria algo assim, ele me ama.”
Conseguia dizer a voz fraca, encostando a cabeça sobre o braço esticado no chão. Se sentia fraca, não havia sangue nos lugares certos.
“E você o ama. E não há pronto-socorro que consiga conter o que está chegando. Estou vendo. Poucos minutos.”
“Nós vamos morrer?”
Tudo estava ficando embaçado.
“Nós estamos morrendo desde o dia em que nascemos e você amou a primeira pessoa.”
“Eu amei apenas a minha mãe até hoje, como ousa falar dessa forma?”
O corpo estava adormecendo.
“O amor de mãe é maior, mais intenso e caloroso, ele te sustentou até hoje. Só que o amor de fora não é. Você tem alergia, alergia a que? Me diga antes que seja tarde demais.”
Elas não tiveram tempo para que mais uma palavra fosse proferida. O coração descansou e nunca mais pode ter reação a alergia de amar.

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