Era uma vez, uma menina que se sentia muito diferente. Sua mãe não acreditava em sua capacidade, seu pai ela mal via, a irmã a ridicularizava sempre, com base na crença da mãe. Admito que às vezes ela dava bandeira para isso, mas argumento que ela estava deprimida demais para tomar atitudes fervorosas em relação ao que diziam sobre ela.
Se sentindo incapaz, decidiu ir ao hospital. Se registrou com a recepcionista e deixou a cargo dela a escolha do médico, qualquer um servia, ela não sabia o que tinha. Sendo assim, se decidiu por confrontar a quem quer que a atendesse, propondo o desafio de a curar do que a fazia mal, foi decidida ao consultório.
A chamaram horas depois da chegada, repetiram várias vezes o nome dela, pois a menina não estava prestando atenção.
— Presente! Estou presente!
— Isso não é uma chamada da escola, se acalme. Pode ir por esse corredor à esquerda, terceira porta à esquerda, tem um número sete na porta. Aqui sua ficha.
— Obrigada, tenha um bom dia.
— Uma boa tarde, já é de tarde.
“Pegue sua tarde e engula”, foi o que pensou enquanto seguia para o corredor à esquerda, para logo parar em frente a porta número sete, também à esquerda. “Mas depende do referencial”, devaneou. “Hoje estou pensando demais, será possível que a cura já começou?”. Deu três batidas na porta com as juntas dos dedos dobradas. Sem resposta. Mais três. Começou mais uma pancada e a porta se abriu.
A sala estava escura, com iluminação apenas da tela do computador, em cima da mesa no canto esquerdo em relação a porta.
— Sente-se, fique à vontade. Aceita um café? Passei ao final do descanso de agorinha.
— Agradeço a gentileza, mas não é disso que preciso. Preciso que me cure. E cadê o senhor? Não o vejo.
Ela se direcionou à cadeira frente à mesa, andando observando apenas sombras, fazendo uso do tato para não tropeçar naquele breu.
— Estou aqui, sempre vou estar, estou antes mesmo de você ter a existência cogitada.
— Que o senhor está vivo desde antes de meus pais se conhecerem é bem fácil, não sou velha. Vai me ajudar?
— Já estou te ajudando. Aceita bolacha?
— Biscoito. Ah, não, isso é mesmo bolacha. Não, obrigada. Oferecer lanche da tarde não é ajuda, é enrolação. Tem muita gente esperando para que o senhor faça seu atendimento.
A presença ainda nas sombras suspirou, aparentemente deitando no sofá, ou melhor, na sombra que possivelmente seria um sofá.
— Eles não vão perceber o tempo passar, pode não parecer, mas não faz um minuto que você entrou aqui, então eles ainda estão pacientes.
— Trocadilhos não são com o senhor, tenho que te dizer. Mas e quanto ao meu problema?
— Veja, a senhorita não me diz o que há, e eu não te digo como resolver. É assim que estamos. Que tal começar a falar?
— Pois bem. Eu nasci feia, esquisita, incapaz, desatenta, preguiçosa e burra, como posso curar?
— Nasça de novo, não quer o café agora?
— O senhor acha que esperei duas horas para ouvir algo como isso que me disse? Que falta de consideração.
— Veja, você entrou aqui e aceitou as condições em que estamos, não quis ligar a luz e não perguntou o porquê. Serei um médico monstruoso? Excêntrico? Maluco? Um sádico sexual? Não se preocupa com a própria segurança?
— O que isso tem a ver com meu problema? O senhor fique com os seus.
— Educação é o que te falta. Se apresente, por gentileza.
— Te entreguei minha ficha. — E repetiu as mesmas coisas que escrevera antes para o cadastro.
— Muito prazer, sou o doutor Edom, e vou te curar.
— Então não preciso nascer de novo? – Perguntou a moça prendendo a respiração.
— É claro que não, não estudei medicina para esse tipo de tratamento. Ouça bem, não caia nesse tipo de conversa, pode ser enganada na rua.
— Eu não caio, é que o senhor é estudado, fica fácil acreditar no que diz.
Ele se levantou, foi até a cômoda coberta por escuridão, a abriu com chave e retirou um frasquinho alaranjado translúcido com uma tampinha branca e entregou a ela.
— Vou anotar na sua ficha o remédio e sua condição, na saída marque seu retorno, pois quero acompanhar sua recuperação.
“Como recuperar algo que nunca foi sadio?” Resmungou em sua própria cabeça.
—
“Cura” era a única palavra no rótulo do potinho. “Cura”. “Pensar numa cura é absurdo. Não se cura genética ou a mente assim, com algumas pílulas. Que nem sei como tomar isso”.
—
A menina voltou um mês depois, pois sentiu que seria o suficiente.
— Bom dia. Moça? Moça!
A recepcionista, por coincidência ou destino, era a mesma com quem conversou da primeira vez, a olhou de cima a baixo, segurando o telefone fixo contra a orelha, balançando a cabeça como se o falante pudesse vê-la.
— Primeiramente, é uma boa tarde. Segundamente, está precisando de quê? — A menina espumou de raiva ao ouvir a mulher.
— Primeiramente, o sol ainda brilha sobre nossas cabeças? Se sim, é dia ainda. Segundamente, vim fazer o retorno com o médico Edom.
Com um dos bicos mais feios que já estavam presentes sobre a face da Terra, a atendente com poucas palavras entregou a nova ficha à menina e a despachou dali.
Algum tempo depois, sem nem se dar conta de quanto, foi chamada e novamente orientada sobre como chegar à sala. Entrou no corredor à esquerda, foi até a terceira porta à esquerda, com o número sete sinalizado no alto. Seguiu o mesmíssimo ritual da ultima vez, até mesmo a penumbra da sala se encontrava igual, como também o local de onde falava o médico.
— Como estamos?
— Eu me sinto igual, e aparento estar igual.
— Eu estou bem. Tomou todos os remédios?
— Ora, tomei. Mas não sei se tomei certo. Alguns dias esqueci, e tomei dois no mesmo dia para compensar.
— Fez bem, é assim mesmo que eu havia receitado.
— O senhor não receitou coisa alguma. Nem sei o que era aquilo.
— Você sabe bem para que servem os remédios.
— Não sei, não senhor. Parece ser o ato mais sem serventia do qual já fui responsável até hoje.
— Mas foi exatamente isso.
— Como é?
— Eu não sabia bem o que fazer com você, então tive que te despachar para ter tempo de pensar com clareza, não poderia ficar o tempo todo te mandando nascer novamente, precisaria de mais criatividade para isso.
A essa altura, a menina já havia tateando até encontrar uma poltrona próxima ao sofá, já nem se irritava mais, havia chegado ao ponto em que aquele senhor não poderia mais perturbá-la.
— Ah, bem que pensei que seria algo do tipo mesmo. Com isso minhas esperanças se vão por completo.
— Porém, eu cheguei a uma conclusão.
Sem ânimo para perguntar, ela esperou com paciência ele voltar a falar.
— Consegui para você um amuleto de sorte.
— Perdão? — Talvez ela não tenha ouvido direito.
— É isso, vou te dar um amuleto para você carregar sempre. E este amuleto vai te proteger de tudo. Será como uma aura protetora. Vão te dizer palavras feias e não será atingida. Vão te sabotar, e você vai conseguir contornar. Você vai cair, mas não vai sentir o joelho ralado. Aceita um café?
— Quê café o quê! Como pode o charlatanismo me ajudar? Eu já me sinto tão mal. Vê se pode, algo assim me ajudar seria o cúmulo!
— Pois eu vou tomar café.
O aroma do café coado chegou até a menina, que já se sentava sem forças em sua poltrona, segurando o rosto entre as mãos, com os braços apoiados no joelho.
— Eu… Eu realmente preciso de ajuda, o senhor realmente era minha última chance de fazer algo dar certo, eu nasci errada e estou assim até hoje. — Não teve vontade de chorar, apenas se sentiu desamparada.
— Olha, querida — Disse a voz se aproximando — Acredite quando eu digo, você pode confiar no que falo, e pode ter certeza de que esse amuleto vai te ajudar em sua autoconfiança e em tudo que sente falhar. Com licença. — Pegou as mãos delas com delicadeza, como se um gato as pegasse e colocasse entre as patas — Se em um ano, você não estiver satisfeita, volte aqui, e farei o procedimento cirúrgico, intervenção e mudança que achar que irá te fazer melhor, e tudo por minha conta.
A menina engoliu o choro que ameaçava a chegar, e acreditou. Sentiu as mãos dele se afastando e se aproximando novamente, fechando os dedos dela em torno de um objeto redondo e disforme. Sem mais palavras, ele abriu a porta do consultório e ela saiu.
Ele a acompanhou de longe, olhando-a de costas. Ela agarrava o amuleto com força, suas mãos tremiam. A cabeça estava erguida, os ombros retos, e não pestanejou mais em seus passos. Quando ela já estava lá fora, ele se apoiou no balcão da recepção, ainda olhando para a porta de vidro que a menina havia acabado de transpassar.
— Algumas vezes, minha querida Ariel, tudo que falta às pessoas, é um pouco de fé em si mesmas. Quando isso não é possível, elas têm que acreditar em outras coisas que lhes dê força.
Ele deu as costas e voltou pelo corredor, batendo as asas e cantarolando.