Fuga da prisão

Tudo começou quando minha mãe me vendeu a um estranho. Eu, particularmente não me importei muito, embora tenha pensado sobre sentir falta de minha irmã, só que logo esqueci de sua existência, nem éramos muito próximas mesmo.

O homem me colocou em seu carro, sentou ao meu lado e o ligou. Foi incrível sentir toda aquela ventania, era a primeira vez que sentia toda aquela movimentação à minha volta. Mas não me importei, estava tudo muito tranquilo, tão tranquilo que acabei por encostar minha cabeça, logo dormindo um sono profundo. 

Não sei se a viagem foi longa, pois dormi durante toda ela. Acordei apenas quando o carro parou, ele olhou para mim e disse algo, não entendi qualquer palavra, tamanha a sonolência que estava. Ele desceu primeiro, apertou a campainha, ela o recebeu com a cara fechada, com apenas um leve sorriso no canto da boca. Ele sorriu ao perceber isso, fez sinal para ela esperar e veio até mim. Me levou até ela. 

Ela, por sua vez, sorriu e o abraçou, agradecendo por mim. Eu não tive muito o que fazer, ele me comprou, poderia me dar de presente também. Todos entramos, fiquei no sofá, observando ambos conversando. Ele disse que tinha que ir, mas que gostava de a ver feliz, e foi embora rapidamente. 

Com isso, ela voltou sua atenção a mim, me deixando em um quarto só meu, sentando próxima, mas não ao meu lado, conversando em voz baixa, perguntando como eu gostaria de ser chamada. Eu nunca havia pensado nisso, não me chamaram de nada até hoje, não saberia escolher algo a essa altura, então preferi apenas observar o ambiente. 

Sem minha interação ou resposta a qualquer coisa, ela colocou comida próximo a mim, e foi cuidar de suas coisas em casa, trancando a porta antes de sair. Novamente me encostei e dormi, tenho muita facilidade para pegar no sono a qualquer momento, desde pequena. 

Quando dei por mim, estava sozinha e já havia anoitecido. Por um momento, me veio um ímpeto que não pude conter. Precisava fugir. Enquanto estava com minha mãe, não achava que o mundo pudesse ser tão espaçoso, mas agora que vi um pouco dele, não acredito que poderei esquecer. Foi uma vida aprisionada, e nem tinha consciência disso até o momento. 

A mulher estava distraída, nem a via fazia muito tempo. Comecei a olhar por todos os cantos, tentando abrir passagem ou forçar ela. Era difícil a princípio, me desesperei nos primeiros minutos, seria a primeira vez que tentei uma fuga. Não percebi exatamente o que estava acontecendo, nem me dei conta de minhas ações, até estar totalmente livre, havia escapado mas não totalmente, faltava uma última tentativa de fugir, o último portão a ultrapassar. Continuei em agonia correndo de um lado para o outro em busca de uma brecha, uma única oportunidade. Quando menos percebi, ela me encontrou.

Senti suas mãos chegando a minha volta, olhei para trás e lá estava ela, me agarrando e sorrindo, eu gritei e esperneei mas nada a impediu de me colocar novamente trancada no quarto. Dessa vez não demorei muito para voltar a procurar uma forma de fugir, e no outro cômodo escutei ela falando:

— Oi, alô! Não sabe o que a hamster fez, adivinha — Falou rindo, segurando o telefone contra a orelha — A salafrária fugiu, vi ela saracoteando pela sala, já estava debaixo do sofá…

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