Quando voltaram a me apresentar aquela tela, eu não sabia se estava pronta para pintá-la novamente. Sobre o algodão já um tanto desgastado, estavam marcas permanentes da última vez (e algumas linhas finas das pequenas tentativas ao longo dos anos). Ele bamboleava sobre o cavalete. Dessa vez, eu não quis deixar de tentar, mesmo sem rumo, sem prumo, sem ideia de por onde começar.
Para começar, tentei pintar com firmeza, sem cores ou brechas para alterações no que eu fizesse. A tinta, aos poucos, mudava da tonalidade acinzentada para o amarelo, vermelho e verde — as cores que sempre gostei de trabalhar.
Mesmo assim, não conseguia organizar. Misturei todas em dado momento e consegui um marrom quase preto, uma cor que eu não queria e que não cabia em minha arte.
Com o passar dos dias, tentei cobrir as marcas, mas todas as vezes que passava por elas com a ponta dos pincéis, elas puxavam mais pigmentos escuros e marcavam ainda mais.
Eu estudava enquanto me esforçava, mas, toda manhã, as figuras formadas mudavam um pouco, como que respondendo às alterações diárias. Eu gostava de pintar; só nunca admiti isso. Era mais fácil dizer que dava errado por eu não gostar. Sozinha, em privacidade, eu me perguntava por que não conseguia me organizar.
Os pincéis eram trocados com frequência, mas nenhum deles conseguia transferir para a tela a imagem que eu tinha em mente, causando estresse a cada tentativa. Por fim, misturava e espalhava as tintas com os dedos da mão direita. Tão confusa que, próxima ao final, cheguei a beber a água de tinta onde lavava alguns dos pincéis dias antes.
Em algum momento, me afastei e vi: havia cores em certas partes da imagem, mas também uma confusão de outras. Não era algo bom de se ver. As marcas permaneciam bem visíveis, e com novas ranhuras que atrapalhavam qualquer desenvolvimento que eu conseguia alcançar.
Sei que havia um jeito de consertar tudo, mas eu não conseguia. Não tenho experiência, muito menos habilidades para corrigir algo que não está dando certo. Após desistir, sonhei com a pintura, e ela estava linda. Imaginei onde poderia ter feito os reparos e entendi que não seria eu quem conseguiria arrumar. Acho que não sou uma boa artista.