A menina e o passarinho

Ouvi três toques suaves à porta. Era uma manhã ensolarada ao mesmo tempo que um pouco turva de neblina que já ia se dispersando, com algumas nuvens pingadas no céu, quando ele chegou. Através do olho mágico, o vi, parado, segurando algo em seus braços, era uma gaiola?

Voltei para a sala, peguei uma máscara e me preparei para abrir. 

— Oi! Por que não disse que viria? Teria me preparado! Há quanto tempo!

— É, oi, sabe… Sei que ficou difícil depois que tivemos que começar a trabalhar em casa… 

— Sim, o que tem?

— É, sabe… Gostei das vezes em que saímos juntos. Vi isso aqui e pensei em você, acho que pode fazer uma boa companhia para você enquanto estamos distantes… Pode ser que te ajude a se lembrar de mim.

Ainda estávamos à porta, ele me olhava a um metro e meio de distância, com sua máscara abafando sua voz, embaçando, ao mesmo tempo, a parte interna de seus óculos. Mantive meu silêncio, enquanto ele se aproximava até estar bem de frente do tapete diante de mim. 

Colocou sobre o “bem-vindo” um pacote, embrulhado em uma sacola, a desenrolou e pediu para que eu erguesse a gaiola que ali estava. Conforme ele o fazia, foi possível ver um pássaro encantador, para dizer pouco. Era um animal exuberante, colorido em tons de amarelo, vermelho e verde, que olhava com curiosidade para o ambiente em volta dele. Fiz como pediu e a levantei.

— Pensei nessa forma de te entregar ele assim, para que não tivesse de descontaminar a gaiola novamente, poderia acontecer de você passar álcool nele, né? Melhor evitar. 

É, pensei mentalmente, será possível que alguém seria capaz de passar álcool em um pássaro? Deve ser porque está preocupado… Certamente é por ele ser muito responsável. 

— Assim, eu não acho que eu iria…

— Você está linda! Sabe… Muito lindinha. Mesmo meio bagunçada… Ficar em casa é assim mesmo, né? Eu também ando meio assim… Já vou indo, sabe… Tenho coisas a fazer. 

— E a ave? Vai deixar aqui mesmo?

— Ah, com certeza, é meu presente para você, já deixei o potinho de ração bem cheio, mas confere a água depois. Te mando mensagem quando estiver em casa, até mais!

Deu as costas e foi embora sem olhar uma segunda vez. Fiquei parada, olhando para a mistura de cores e ele olhando para mim. Nunca em qualquer momento da vida, eu quis um pássaro, jamais. 

Após alguns momentos, peguei o álcool em gel, passei nas mãos e peguei a alça da gaiola, e a coloquei sobre a mesa de centro da sala. Me sentei sobre o tapete à frente dela e fiquei o olhando. O sol entrava em grandes raios por cima de nós, devido ao horário, mais iluminava do que esquentava. 

Cheguei a conclusão de que não havia muito a se fazer. Agora teria de cuidar dele. Pesquisei em alguns sites até achar de qual bicho se tratava, para descobrir como cuidar. Enquanto isso recebi sua mensagem. Havia chegado bem em casa, estava tudo certo. Discorreu sobre como foi a viagem de volta e como havia de divertido no trânsito. Conversamos durante o dia todo, mesmo durante os momentos de trabalho no computador, sempre tirando um tempinho, um para o outro. 

O encontro da manhã havia sido estranho, mas ele era empolgado mesmo, estávamos nos conhecendo agora, mas sentia que poderíamos ficar muito próximos. O pássaro ficou tranquilo o restante do dia, não fazia barulho, observava com calma, comia e tomava água. 

Os dias que se passaram se tornaram rotina, com o pequeno sempre atento, até o momento em que abri a gaiola, claro, com todas as janelas fechadas, ele ainda em cima da mesa de centro. Fiquei de frente a ele, oferecendo comida com as mãos. Com uma animação fora do esperado, ele pulou para minha palma, se agarrando aos meus dedos e pescando as suas sementes favoritas do punhado apresentado. Passamos algumas horas assim, desenvolvendo confiança, não iriamos nos machucar, nenhum de nós dois queria isso. 

Conforme as semanas avançavam, nós dois ficávamos cada vez mais próximos, para onde eu ia, ele voava atrás. Até mesmo durante o banho, ele se sentava no beiral do box, ocasionalmente voando para os respingos de água e voltando para a posição original.

Ao mesmo tempo que minha relação com ele se desenvolvia, com o homem que o me deu também estava indo de maneira formidável, mandávamos mensagens praticamente a todo momento livre, e para nós em casa, era muito tempo livre. Tudo ia muito bem, aprendemos a suprir a nós mesmo com a interferência da distância, ocasionada pelo pedido para ficarmos em casa em meio a uma pandemia mortal. 

Nos primeiros dias de inverno, ao abrir a gaiola pela manhã, ele me deu uma picada. Soltei um grito de susto, ele, ao mesmo tempo, recuou a cabeça para entre as asas, para logo se aproximar da porta da gaiola, como quem pede desculpas pelo ocorrido. Logo o perdoei, afinal, eu era o animal racional. Continuamos bem, mas algo parecia estar mudando, aos poucos. 

Alguns dias depois, novamente ocorreu, dessa vez, com mais força, já deixando uma marca bem definida de seu bico em meu indicador. 

— Meu bebezinho, o que está acontecendo? Eu fiz algo errado?

Claro, sabia que ele não responderia, ainda assim acredito ser inevitável proferir algumas palavras em meio a uma situação que não se entende. Da mesma forma que antes, após aquele primeiro momento, ele voltou ao seu comportamento companheiro normal. 

Sabendo que algo estava errado, busquei entender a causa, só que não havia respostas, não havia por que das coisas estarem mudando, e estavam, mesmo que eu não entendesse o motivo.

Chegou o dia em que ele me picou com toda a sua força, me tirou uma gota grossa de sangue, e chorei. Chorei muito. Eu o amava, por que ele fazia isso comigo? Tentei ser racional, a dor não era física, era emocional. Ele não está mais me querendo, mas ele chegou a gostar tanto de mim. 

Tentei melhorar, me esforcei muito, me esforcei com tudo que pude. Foi inútil. Nada era a solução, não consegui compreender. Era para estar tudo certo, eu estava fazendo tudo certo. 

Em uma de minhas últimas tentativas, ao abrir a portinhola, ocorreu de forma muito pior a que havia imaginado. Ele alçou vôo sobre mim. Gritando pela primeira vez, arranhando toda a minha face com as garras agudas, tentei impedir, cobrindo o rosto, e tive as costas das mãos feridas com vincos profundos. Com uma mão livre, alcancei uma fronha sobre o sofá, e não sabendo como, o embrulhei com ela. Colocando de volta na gaiola com menos cuidado do que eu gostaria, mas que a situação urgiu. 

Eu estava sentada no sofá de frente a ele, sem acreditar, com sangue fluindo pelo rosto, pingando das mãos. Meu peito doeu tanto, que pensei que poderia enfartar a qualquer instante. Não consegui chorar. Após me lavar, me deitei na cama desde a manhã até virar o outro dia. Não poderia desistir assim. 

Tentei mudar a estratégia, no dia seguinte. Abri a gaiola enquanto ele dormia, logo ao sol raiar. Fui para a cozinha, passar um café para a dor de cabeça da noite não dormida. Com toda a certeza, iriamos dar certo. 

Quando voltei para a sala, o sol já iluminava com raios suaves alaranjados a gaiola. O pássaro colorido não estava mais lá. Olhei para o celular, ontem ele não havia me enviado mensagem, pela primeira vez em seis meses. 

Fui até a janela, que estava entreaberta, e terminei de a empurrar até o outro lado, sentindo o vento frio que entrava por ela. Pensei sobre o apelido que havia dado ao meu companheiro durante esse tempo. 

— Será que foi por essa pequena fresta que o Amor foi embora? 

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