Úrsula, por Maria Firmina dos Reis

Úrsula é o primeiro livro abolicionista publicado no Brasil, em 1859 em São Luís, sob o pseudônimo de Uma Maranhense. Maria Firmina foi a primeira escritora abolicionista, que deu também inicio á literatura afro-brasileira, em que o negro representa a si e a sua história a partir de sua propriedade acerca do assunto.

Firmina

Essa escrita faz parte do romantismo, caracterizado por embelezar tudo e todos, de forma a ir contra a realidade de forma perceptível, possui personagens sem profundidade psicológica como parte de uma trama um tanto exagerada, mas em contexto com o movimento do qual faz parte.

Em seu início há uma longa descrição do cenário de forma poetizada, com riqueza de palavras para alcançar o resultado desejado.

“São vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma- branco lençol de espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brande irado, ameaçando quebrar os limites, que lhe marcou onipotente o rei da criação […]” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 95)

Logo a narrativa chega a um dos personagens, Tancredo, que já exausto ele e seu cavalo, acaba por cair abaixo de seu animal, que não resiste por muito tempo por tão extenuante caminhada.

“De repente, seu cavalo, baldo de vigor, em uma das cavidades onde o terreno se acidentava mais, mal podendo conter-se pelo langor dos seus lassos membros, distendeu as pernas, dilatou o pescoço, e, dando uma volta sobre si, caiu redondamente. O choque era demais violento para não despertar o meditabundo viajor; quis ainda evitar a queda; mas era tarde, e de envolta com o animal, rolou no chão.” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 99)

O rapaz permanece por um longo tempo desmaiado embaixo do cavalo morto, até que um escravo, passando para buscar água, cruza com a estranha cena, troca algumas palavras com Tancredo e se tornam amigos de almas. O ferido se compadece de Túlio, o cativo, assim como Túlio se compadece do outro. Logo, coloca-o em suas costas e leva-o para a casa que serve.

A casa é de Luíza B., e como uma senhora, recebe Tancredo de forma a cuidar de suas enfermidades. Logo após ser acomodado, uma febre se alastrou por todo o corpo, juntamente com espasmos que preocupavam Túlio em demasia.

Durante tais ocorridos, Úrsula, filha de Luíza B., trata de cuidar tanto de sua mãe que é assolada pela paralisia e males decorrentes de tal incapacitação e falta dos cuidados devidos a ela, quanto de seu hospede, por quem acaba involuntariamente se apaixonando, notável por seu ciúme de um nome dito durante uma das alucinações causadas pela febre.

“Úrsula, com a timidez da corsa, vinha desempenhar à cabeceira desse leito de dores os cuidados que exigia o penoso estado do desconhecido […] O que é a natureza humana! O que é o coração da mulher! A Úrsula, pobre flor do deserto, que importava um nome proferido em delírio?” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 113)

Logo Tancredo se recupera, vendo-se apaixonado por sua gentil albergueira, ele se declara e é correspondido. A confiança estabelecida rapidamente permite que seja contada a história do primeiro amor do moço. O mancebo estudou direito por 6 anos fora de casa, ao retornar, sua mãe havia adotado uma moça órfã que logo se tornou alvo de seu inaugural amor da juventude. Percebendo que era correspondido, tentou convencer sua mãe a aceitar o casamento dos recém enamorados, recebeu o apoio dela, mas a preocupação decorreu por seu pai, que não quis aceitar o matrimônio.

O rapaz insistiu, com isso, recebeu a sentença do patriarca. Tancredo deveria trabalhar por um ano em outra cidade, e após esse tempo, teria a permissão para se casar com Adelaide. Decorrida essa data, ele estava de volta e foi recebido pela noticia de que sua mãe havia deixado o mundo dos vivos. Tal informação abalou-o profundamente, acabou por canalizar toda sua dor para o amor que sentia pela apadrinhada da falecida, correndo para casa. Lá, uma surpresa maior ainda aguardava-o, ao ver sua bela desposada composta por ricas jóias e vestimentas, correu ao seu encontro para encher-lhe as mãos de beijos. O seguinte trecho elucida o fato:

“-Tancredo, respeitai a esposa de vosso pai!” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 157)

A moça por quem esperou por um ano, mal matara a mãe do jovem homem de desgosto, rapidamente surrupiou a cama da pobre defunta ao lado do velho que antes chamava por pai. Assim, Adelaide se tornou a mulher mais vil e odiosa que Tancredo já havia conhecido.

Passado essa breve introdução à antiga vida, os amantes foram em busca da permissão de Luíza B., a mãe enferma de Úrsula, que, rapidamente fora dada, pela eminencia da morte, a mulher temia a orfandade prematura de sua filha, sem antes contar-lhe um pouco de seu passado.

Luíza B. era irmã de Fernando P., possuíam um forte laço fraterno, até que a menina se casou com Paulo B., contra a vontade do irmão, não por menos, pois foi um casamento difícil, cercado das dividas de jogo e desgostos. Há 12 anos, o cônjuge foi assassinado, deixando a senhora B. acamada, paralítica e com a filha ainda saindo do berço.

Com as histórias contadas, os corações entrelaçados, Tancredo acerta a liberdade de Túlio, o escravo que o salvou, e saí em busca de solucionar problemas na cidade. Enquanto isso, Úrsula cuida da mãe e todos os dias visita a mata em que se declararam. Em um desses dias, um homem aparece, atirando em um passarinho e ao vê-la, imediatamente se apaixona, causando horror na moça, que esperava apaixonada seu noivo retornar. O estranho chega a ameaça-la com seu amor louco, aterrorizando-a ainda mais, que foge à primeira oportunidade, estranhando pois, aquele ser sabia seu nome, mesmo ela desconhecendo-o. Ao se achar sozinho, ele pensa com seus botões.

“- Mulher! Anjo ou demônio” Tu, filha de minha irmã! Úrsula, para que te vi eu? Mulher, para que te amei? Muito ódio tive ao homem que foi teu pai: ele caiu às minhas mãos, e meu ódio não ficou satisfeito. Odiei-lhe as cinzas; sim odiei-as até hoje; mas triunfaste do meu coração, confesso-me vencido, amo-te! Humilhei-me ante uma criança, que desdenhou-me e parece detestar-me! Hás de amar-me. Humilhado pedi-te tu afeto. Maldição! Paulo B., estás vingado!” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 195)

A partir disso, Úrsula preocupada, segue a cuidar de sua mãe, sem coragem para contar o ocorrido da mata, até o dia em que seu tia envia uma carta, dizendo-se arrependido e declarando o amor fraterno. Sem demora, Fernando P., o comendador, aparece para visitar a senhora B., visita que apenas serviu para abreviar seus dias de vida, já após a saída do que Luíza e Úrsula chamavam de monstro, a mãe da menina diz suas últimas palavras e se despede da filha, deixando-a sozinha no mundo.

No dia seguinte foi realizado o enterro, e também o ápice da escrita. A órfã saiu para chorar no túmulo da mãe, no cemitério de Santa Cruz, lugar em que Tancredo e Túlio a encontram, desfalecida pela dor, frente à lápide.

Eles fogem para um convento, onde mesmo com preocupações, marcam o casório. Enquanto isso, o comendador está em fúria pela fuga da sobrinha e futura esposa. Desconta a raiva em Susana, uma escrava que esteve com a menina antes da fuga, e que também ajudou a cria-la. Vai atrás dos fugidos, sequestra Túlio, mas esse usa da esperteza e foge, para acabar morto por Fernando, logo com Tancredo se juntando ao grande amigo, visto que a fúria consegue encontrar os recém casados, e lá mesmo dá fim à vida do desposado.

“Amaste-a Tancredo? Amou-te ela? Oh, há de amar-me também, quando tuas cinzas já frias no sepulcro lha não recordarem tua passada ternura.

E o infeliz Tancredo, no último transe de sua íntima agonia, estendeu ps braços e exclamou com delírio amoroso:

-Úrsula! Úrsula! Úrsula!

Então a donzela despertou de seu dolorido letargo, abriu os olhos, e num excesso de amor apaixonado, e de uma dor íntima, lançou-se seu desditoso esposo, e unindo-o ao coração recebeu-lhe o derradeiro suspiro.” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág 265)

Decorrido tais fatos, Fernando P. conseguiu sentir a dor da perca, e chegando ao remorso, se amedronta com efeitos de tais mortes sobre a jovem mente da viúva, que fica transtornada, fora da realidade.

“Mas o fantasma dessa menina era um remorso vivo para seu coração; seus olhos cerrados, seus lábios entreabertos, sua respiração curta e anelante, pareciam repetir-lhe:

– Assassino!” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 268/269)

“O comendador saiu correndo, porque a presença dessa mulher matava-o.

Na sua desesperação ninguém o consolava, porque era mau e cruel para os que o conheciam.

Seus escravos olhavam-no pasmos, e não o reconheciam. O remorso o havia completamente desfigurado” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 171)

Tamanho desalento faz com que Úrsula não resista por muito tempo, acabando por seguir o rastro de sangue que passou por sua vida.

“E ela, nesse transe supremo, cruzou as mãos sobre o peito, apertando nesse estreito abraço a florzinha seca de sua capela, e murmurou – Tancredo! -, e com os lábios entreabertos, e onde adejava um sorriso divinal e como um anjo deu um último suspiro.”(DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 278)

Se passam dois anos, o caso já não é mais lembrado, as mortes de Susana, a escrava, Túlio, escravo forro e a de Tancredo, em grande barbárie, foram abafadas. Não há mais alguém envolvido, a não ser um homem, chamado frei Luís de Santa Úrsula, o comendador Fernando P., passado por tais coisas horrendas, ainda no fim da vida, se declara não arrependido e grande amante de Úrsula.

Em ultima instancia, volta a falar da moça Adelaide, que perde o marido, pai de Tancredo por intermédio das dores da vida que ele levou, se casa com outro, no entanto ele não ama sua beleza como ela desejava. Vem atrás dela também, as memórias do que fez passar a mãe de seu primeiro noivo e antiga esposa de seu primeiro marido.

“E o remorso, que lhe pungia na alma, aumentava a grandeza de suas mágoas, porque a imagem daquela mulher, que tanto a amara, e cujo dias ela torturou sem piedade até despenhá-la no sepulcro se lhe erguia melancólica na hora do repouso, a amaldiçoava.” (DOS REIS, Maria Firmina, 1859, pág. 284)

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