Primeira aula online

“Oi? Estão me escutando?” 

“Travou.” 

“Não to ouvindo.” 

“Ô professora, a senhora tá sem aúdio.” 

“O problema é você, porque eu to escutando ela.” 

“Bom dia!” 

“Carai que imagem ruim.” 

“Para de xingar, idiota” 

“Vocês estão me escutando?” 

“Bem-vinda, Joana” 

“Alunos, se não pararem de falar, vou silenciar os áudios e ninguém vai falar.”

– 

“Bom dia novamente, sei que estamos em um mato sem cachorro com essas aulas. Muitos de vocês estão com dificuldades. Pessoal, só estamos com vinte e oito pessoas, cadê seus colegas?”

“Vou mandar mensagem no grupo” 

“Os otários devem tá tudo dormindo” 

“Respeite os seus companheiros de turma, Pedro!” 

“Desculpa, professora…” 

“Parem de digitar no chat.” 

“Professora, o Vitor não tá conseguindo entrar, aceita ele na aula.” 

“Não estou recebendo qualquer solicitação para entrar na aula, pede para ele solicitar.” 

“Nada ainda, a senhora tá fazendo certo?” 

“Estou sim, pois aceitei vocês.” 

“Bem-vindo, Vitor. Já somos trinta e seis, falta alguém? Já vou começar.” 

“Podem ligar as câmeras? Não consigo dar aulas para as letras que aparecem no lugar que deviam estar os rostos de vocês. Agradeço, Sofia. Mateus, Ana Maria, Vitor, Pedro. Já estou mais confortável.” 

“Professora, como eu faço para ver meus colegas?” 

“Vou tentar mostrar como fazer.” 

– 

“Conseguiu?” 

“Não, deu na mesma. Vamos sempre usar essa plataforma?” 

“Também achei péssima.” 

“Podemos usar a que o professor Rubens usa? É bem melhor” 

“Pessoal, já foi metade do horário. Mantenham o foco aqui. Seguinte, como está sendo a quarentena de vocês?”

“Profa, posso falar? Obrigado. Descobri que aquilo que eu sempre dizia, sobre ser antissocial e tudo mais, era tudo balela, não ter meus colegas por perto fazendo graça e a minha casa me sufocaram. Moro em um apartamento dois de dois quartos, é realmente pequeno, fazem construções assim hoje em dia, né? Pra render mais vendas e economizar espaço. Minha mãe não pode ficar de quarentena, ela trabalha de doméstica, se saísse, ficávamos sem renda. Minha irmã tem asma e bronquite, estamos com muito medo da minha mãe trazer o vírus pra ela, tanto que estamos muito distantes, mesmo com a casa pequena, isso também me abalou. Eu não me sinto bem”

“Felipe, podemos conversar após a aula acabar? Ok, combinado. Se vocês não se sentirem confortáveis, não precisam falar, tudo bem?”

“Eu não me importo, Linda. Passei a maior parte da minha quarentena na chácara da minha avó, com o tempo livre, usei para montar uma banca de vendas na beirada da BR, aprendi a fazer muitos bolos e os caminhoneiros sempre paravam para comprar algo. Minha família brigou, meus pais estão separados e minha irmã e o namorado moram na única casa que minha mãe podia ficar, ela não pode pagar aluguel. Era para minha irmã sair mês que vem, mas ela engravidou e o casal não juntou dinheiro nem para dar entrada em um imóvel. Meu pai brigou comigo por querer que eles saíssem, acabei falando muita coisa de errado que ele já fez e os motivos de não fazer parte da nossa família agora. Eu e o Gabriel estamos bem, já é um ponto positivo. Obrigada por me ouvirem.”

“Linda, minha vez. Essa quarentena só mudou uma coisa na minha vida. Parei de ir pra aula, o que foi um sossego danado. Aproveitei meu tempo com meus amigos, meus parentes fizeram alguns churrascos. Não entendo qual o motivo de tanta comoção. As aulas deviam ser presenciais, as praias e ruas comerciais estão lotadas mesmo. Esse fim de semana vou pra Porto de Galinhas dar uma passeada, quem quiser ir comigo, só mandar mensagem no privado, valeu.”

“A ê Marcão, acho que você não pode levar assim na gracinha não. A parada é séria. Passei os últimos meses discutindo com meus pais isso, eles são negacionistas, e isso piorou demais após eles atestarem positivo. Correram para um amigo farmacêutico e compraram cloroquina, depois de tanta propaganda do alto escalão, parecia mais um milagre em vidro do que remédio. Se o chefão usou, os seguidores usam também. Quem de vocês apoia, eu quero mais é que vão se foder. Terminei, teacher.”

“Licença, a Viviane tá me pedindo pra avisar a senhora que ela não pode entrar na aula porque ta acompanhando a mãe no hospital.”

“De primeira, levei como se fossem férias adiantadas, fiz planos para o fim da pandemia até. O ano está acabando e não realizei qualquer uma dessas coisas. No segundo mês já não consegui fazer nem o que antes me deixava feliz, tudo foi perdendo o sentido, o que antes sentia ao estar desolado, naquele momento, perdurou por muito mais tempo. Vivi estático por meses, tentei fazer exercícios para melhorar o peso, mas também perdeu o sentido. Me aproximei e me afastei das pessoas, dormindo ou bebendo para perder a consciência. Minha mãe ficou em casa por trabalhar em escola, minha irmã perdeu o emprego e meu pai continuou a gastar dinheiro em bares. A crise pela qual estamos passando não me abateu, mas os revezes dela, sim. Só reajo ao que acontece, da melhor forma que posso.” 

“Perdi meu avó e meu pai.” 

“Maria?” 

“Fala sério.” 

“Perdeu eles porque não gostam de você, não é?” 

“Sabem como a Maria Eduarda é dramática. Duvido que seja verdade, se fosse, teria dito pra alguém.”

“Meu pai e meu avô estão mortos. Não pude os visitar. Não vi meu avô entubado em uma cama de UTI, não vi meu pai sendo enterrado. Eles se foram, e eu não pude me despedir. Então, Marcos, eu quero que você e sua viagem se explodam. A dor que eu senti você não chegaria perto de entender. Professora, vou sair da aula.”

“Alunos, alguém sabia que isso tinha acontecido?” 

“Eu… sabia, senhora Linda. Fui no desfile fúnebre, nossos pais eram conhecidos. Não quis dizer para outras pessoas pois isso cabe a ela.”

“Então, Marcos? Sua vida tá muito boa, torça para que a sorte dela não caia sobre você, seria realmente uma pena.” 

“Não quero represálias na minha aula, todos fiquem em silêncio. Se vocês não vêem jornal ou leem noticias, eu digo para todos. Contamos com novecentas mil mortes no mundo, vocês conseguem contar até novecentos mil? Sabem que cada número, é uma vida, certo? Cada pontinho, um universo na própria mente. No nosso país, o número é de cento e vinte e seis mil, alguém tem noção da multidão de pessoas? Já viram o Maracanã lotado? Lá pode abrigar setenta e oito mil pessoas, vendo os jogos, já pensam ‘que tantão de gente’, eu penso isso até hoje, vejam o tantão de covas também”

“Nosso tempo acabou, quem se sentir a vontade, me manda mensagem, vamos conversar. Para a próxima aula, leiam os PDF’s e assistam os vídeos que vamos ter uma discussão sobre o assunto. Bom dia!” disse Linda Silva a seus alunos, com um sorriso otimista no rosto enquanto desligava. Desabou na cama ao lado.

“A mãe faz tanta falta”

O coração apertado. 

4 comentários sobre “Primeira aula online

  1. Marcos Felipe Rocha disse:

    Cadê os emojis de Palmas? Senhorita, amei seu texto, ele é comovente, real e um relato verídico desse tempo devastador nessa grande Gaia. Em uma dessas retratações eu me identifico e me emociono, com o aperto no coração e a saudade. Agradeço por essa retratação bela e significante, creio que a história também agradecerá, já que seus textos serão discutidos nas futuras aulas de português, haha!!

    Curtido por 1 pessoa

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