A menina e o coração

“Ela é tão forte, sinto a pulsação da vida”, dizia a mãe logo ao saber que esperava uma criança. Batia forte, e cada vez mais forte conforme crescia dentro daquele corpo. Nos dias precedentes ao parto, a barriga era uma pulsação constante, alguns diziam que iria dar a luz a um coração pulsante, não a uma criança.
Quando o momento chegou, uma linda menina nasceu, aos berros, foi acolhida pelos pais e celebrada por todos, pois era linda e saudável. Enquanto crescia, a menina rapidamente entendeu a si como existência e passou ter sentimentos intensos. Em tenra idade, já sentia o coração palpitar forte em momentos de alegria e surpresas. E quanto mais ela crescia, mais forte sentia o coração bater. Preocupados desde o nascimento, os pais a levavam ao hospital para descobrirem a causa, que não havia resposta, era completamente saudável.
Com um oitavo de vida, a menina já sentia o fardo enorme de carregar um coração, que para ela, era um coração gigante.
“Mamãe, por que só eu sinto isso?”
“Não tenho a resposta, amor, uma hora isso desaparece”.
Não desaparecia, apenas ficava mais intenso. O coração palpitava a ponto de tremer todo o corpo que o carregava.
Ela gostava de correr, estava sempre rindo, até mesmo no dia ensolarado em que conheceu uma velha que capturava pombos em frente a casa da menina.
“Já comeu sopa de pombo?”
“Nunca, minha mãe diz que pombo é rato voador”
“Eu posso te dar sopa de pombo. Posso te dar tudo que pedir.”
“A senhora consegue fazer com que eu me sinta melhor?”
“Posso tentar, mas nunca será exatamente como quer.”
“Eu quero que faça meu coração parar de bater tão forte.”
Com um sorriso, a senhora concordou com a cabeça.
Tomada de alegria, a criança se preocupou em imaginar como seria viver tranquilamente sem um coração pulsando em seus ouvidos ou puxando os músculos. Naquela mesma noite, seu peito parecia que poderia explodir, não conseguia se mexer e tudo girava. Pela manhã, as memórias do dia anterior não passavam de lembranças de um sonho esquecido.
Caminhava com suavidade, sem preocupações. A menina passou a fazer maldades com pequenos animais. Presenteava a mãe com canários com os pescoços quebrados e a assustava.
“A senhora me odeia?”
O coração não tocava em ritmo ensurdecedor, naquele momento, nem a pulsação podia ser sentida, sentia apenas liberdade.
Sentiu a liberdade ao quebrar o dedo da outra menina com quem brincava, e rir ao dizer que foi sem querer. O mesmo sentimento se repetiu ao derrubar um copo de vidro no chão, intencionalmente, no intuito de que alguém se machucasse com isso. Foi sua mãe, e da mesma forma que antes, muito engraçado. A menina não sentia mais remorso ou compaixão. Ao se olhar no espelho, não reconheceu a imagem que via. Uma menina com os cabelos recentemente cortados no pé da orelha, com olhos fundos, sem brilho, sem cor. A pele fina sobre os ossos. Da noite para o dia? Quem é essa? Ela se assustou ao entender quem era naquele momento e correu para a porta de casa, esperando a velha traiçoeira.
Meses se passaram, todas as tardes esperando enquanto durante o dia não conseguia conter seu humor, ao ponto de seus pais não conseguirem a olhar nos olhos, nem se aproximar dela. Evitada por todos na rua, sentia que estava cumprindo a missão. Qual missão?
Depois de o devido tempo passar, a velha retornou a caça as pombas.
“Se sente melhor?”
“Sim, mas não.”
“Está contente sem seu coração?”
“Eu quero ele como era antes. Quero sentir cada batida tremer!”
“Não é possível, querida.”
“Eu exijo! É meu coração!”
“Era seu coração. Não pode o ter mais.”
“Me devolva, velha maldita!”
“Não posso, ele explodiu no seu peito, ainda deve ter alguns pedaços por aí.”
A menina cega de fúria correu para cima dela.

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