A menina e a consciência

A vida é tão bonita, sempre tem muito a ver e conhecer, assim pensam as crianças, e assim pensava a menina, até o momento em que percebeu o Todo Dia. Isso é, irá amanhecer, correr o dia e anoitecer, e dessa forma, seguir sempre igual. A menina se entediou dessa ideia, e acabou por se cansar de tudo e todos. Não fazia diferença. Tudo sempre seria igual.

Com a mente pequena e pouco criativa, ela passou anos assim, para que comer algo saboroso? No dia seguinte não fará diferença. Por que ler um livro, se logo o esqueceria? Considerava sua existência tão efêmera, que a findou ainda em vida. Ao longo desse tempo, em que apenas respirava e satisfazia suas necessidades básicas, sem mesmo as querer, a menina conheceu alguém, toda noite, ao se deitar na cama, a via e conversavam.

“Viu o céu hoje? As estrelas brilham tanto, são fogos de artificio fixos, silenciosos, que nos observam.”

“São bolas de gás em combustão.”

“Tão antipática. Tão prática.”

“Fantasias nos distraem do mundo real. Alguns até se esquecem da própria mortalidade.”

“Daqui a pouco me dirá: ‘O fim está próximo, se esconda’.”

“Há um filme muito interessante que vi ainda criança, antes de tomar consciência. Eles cantam a seguinte música: ‘Você pode até se esconder e rezar, mas do funeral não irá escapar.’”

“Mas você, mesmo tão jovem, já perdeu a fome pela vida?”

“Nunca realmente a tive, a juventude é uma fase de aventuras e alegrias superficiais em um mundo de sofrimento.”

“Você não sofre.”

“Porém, eu poderia sofrer. Entende?”

“Você não anseia viver por premeditar o sofrimento?”

“Claramente, não é obvio? Antes consciente do que devastada.”

“Você sonha.”

“Sonhos inconscientes, irrelevantes.”

“Passará os próximos oitenta anos assim?”

“Sem dúvida alguma, não há nada melhor a fazer.”

“Parece tão inflexível. Pare de dar comida a dona Rita, não compre cobertores em época de frio para os sem-teto e não ouse alimentar os cães da rua. Você quer atuar em uma peça que finge ter controle, e em que é dona da própria irracionalidade.”

“Não quero te escutar, não me diga o que fazer!”. Tentava fugir, mas não saia do lugar, por mais que tentasse.

“Você não pode escapar de mim. Sou o início e o fim, não vou aceitar que isso continue. Você vai ler. Vai conversar e conhecer. Vai ser livre de si mesma.”

“Quem é você?”

“Sou você, e nós somos eu.”

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