Hibakusha 

07 de agosto de 1945  

Querido diário, após 26 horas procurando sobreviventes, agora cesso meu trabalho. Não sei se o que aconteceu pode ou não me afetar, isso vai além de qualquer coisa sobrenatural ou natural que já tenha visto. O céu se incendiou, vi ao longe uma força esmagadora correr pela cidade, eu mesmo senti meus ossos quebrarem e a pele fumegar, uma chama colorida, mas indistinguível perante o caos em que me encontrava, meus instintos soaram altos, pensei que aquele seria meu fim. Agradeço às forças que me mantém vivo por tanto tempo.

Em momentos de crise, escolho os mais fortes humanos para sobreviverem e se tornarem semelhantes a mim. A dúvida me corrói, qual deles, conseguiriam passar pelo que eu passei? Aqueles que sobreviverem a tamanha tragédia, conseguirão viver?  

Eu conheci a madame Curie, a precursora do que mais tarde seria isso que caiu em minha cabeça, uma bomba atômica. Ela foi uma das mulheres mais fantásticas das qual tive a honra de ser apresentado, também ouvi que ela e outros desfalecerem por seu estudo com a radioatividade. A magnitude do horror que ocorreu aqui não pode ser negada. A única coisa que me reteve até o momento, foi o medo de aumentar o caos na mente dos poucos sobreviventes, de criar quem não possuí a capacidade de lidar com a destruição e a transformação.   

Não consegui contar quantos corpos, a conta se perdeu aos oito mil, são mais corpos do que poderia imaginar ver um dia. Há poucas horas vi um garoto, a pele dele estava inteiramente derretida. “Se afaste.” Ele conseguiu sussurrar entredentes. Era só um menino, nunca iria conseguir sobreviver como eu sobrevivo. Acabei por findar sua dor, ela já havia se prolongado demais.   

Em minha busca por alguém com chances de sobreviver, como humano ou como eu, encontrei uma mulher, talvez com trinta anos ou mais, ela estava distante do centro, era onde começava a ter uma leva maior de vivos. No entanto, aquela vida pouco significava, eles morriam em horas, dias, sei que seguiriam a sofrer por semanas e meses. Estariam constantemente assolados pela dor e inquietação. Tomei como objetivo livrar aqueles em pior estado desse mal. Uma moça, foi um caso à parte, ela poderia sobreviver à minha transformação e se tornar uma imortal. Ela possuía as pernas, extremidades e partes do rosto queimados, em carne viva e abraçava um corpo sem vida. Perguntei seu nome utilizando o mandarim, e para minha surpresa, era Maria, o que fez com que inúmeras questões acerca desse nome surgissem em minha cabeça, provavelmente se devia à imigração inglesa, mas com o devido decoro as ignorei.  

Me sentei ao lado dela, que chorava de dor, pedindo para que eu a deixasse, gritava por socorro. Disse a ela que eu poderia a salvar, mas que se tornaria igual a mim. Ela estava confusa pela dor emocional e física, sua família havia morrido e ela não conseguia se mexer. Me chamou para que me aproximasse de seu rosto, ainda apavorada, acariciou minha face, passou os dedos por minhas orelhas pontudas e posso jurar, que por um momento, ela admirou a pele pálida, que se assemelha ao leite mais puro e a nuvem mais clara. Por mais um momento, a chance de salvação, e então me deu permissão.   

Com meus princípios sendo seguidos à risca, fiz o que deveria ser feito, tomei seu pulso e mordi, ela gritou ainda mais, como era possível? A potência vocal daquela mulher me fascina. A peguei no colo, já desacordada e corri para a maior distância possível, a uma cidade vizinha, em que pudesse se curar de todo aquela violência. Escrevo isso olhando a hospedaria em que a deixei, se eu não houvesse roubado roupas e capuzes, jamais me deixariam entrar na cidade, a necessidade me fez ladrão pela primeira vez em minha existência.  

12 de agosto de 1945  

Aconteceu novamente, justo no local em que estávamos descansando, por um momento, permiti que o estado de alerta diminuísse, mas fui suficientemente rápido ao escutar barulhos de motor. Corri primeiramente com Maria, ainda desacordada, mas com a perdendo a cor e os batimentos quase inaudíveis até mesmo para mim. A coloquei a uma distância considerável, não certo de que seria o suficiente para conter o que estava para acontecer. Em todo o tempo que vivi, presenciei os maiores atos de covardia e desumanidade, esse conseguiu ser a maior de todas as façanhas da humanidade.   

Em grupos de três, fiz o que chamariam de sequestro, salvei apenas dois grupos antes da bomba explodir, dessa vez, me pegou em cheio, deixar o diário com Maria foi um acerto sem tamanho. Fiquei nu, quebrado, despelado, cego, surdo, me senti mais morto do que em qualquer momento antes de hoje. Eu vi crianças gritarem por frações de segundo, rapidamente sendo caladas pela destruição incalculável.   

Dessa vez, levei muitas horas para me recuperar por inteiro, e ainda tenho minhas dúvidas se realmente ficarei curado, como disse outro dia, as dimensões da radiação são desconhecidas para mim. Ao chegar no local em que havia deixado Maria e os outros, me deparei com a decepção de não ter sido longe o suficiente, a mulher estava ferida, ao menos desmaiada não emitia seus gritos. As outras pessoas foram atingidas com estilhaços, e estavam mais espantadas com o que acontecia a volta do que com minha aparência.  

Selecionei rapidamente quem poderia sobreviver, sendo duas crianças já muito machucadas e um idoso que aparentava carregar uma centena de anos, os eliminei de primeira. Observei os outros três que restavam. Um homem de altura mediana, beleza mediana, mas com as mãos cheias de calos o rosto queimado do sol. Esse pode ser uma boa escolha, de qualquer forma, os erros podem ser facilmente eliminados, nos primeiros momentos. As outras eram damas da noite, pintadas e ornamentadas para tal fim, todos que ainda estavam lúcidos, imploraram para que eu os salvasse, já descartando qualquer chance de que eu poderia piorar a situação. Em segundos, decidi tudo, a dama nua conseguiria, seus batimentos eram suaves como uma folha ao se despender no outono, a outra urgia por ser salva antes das crianças. Libertei o velho e as crianças primeiro, para que não sentissem medo, cuidei da meretriz e transformei os outros dois que sobraram.   

Maria acabou de acordar, o homem e a moça nua estão desmaiados nesse momento. Vou dar boas-vindas ao novo mundo para recém transformada. E como ela está linda, totalmente curada, com as expressões do rosto ferozes como um tigre ferido. A cicatriz na face a deixa ainda mais única, talvez seja ela a minha dama eterna, depois de tantas centenas de anos sozinho. 

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