A mulher submissa

Da dor se sobressai as melhores artes. Edgar Alan Poe sofreu de percas e vícios, mas se consagrou como exímio escritor de terror. Mary Shelley sentiu pesares e inúmeras dores antes de dar à luz a Frankenstein, uma das obras clássicas mais conhecidas do ocidente contemporâneo. No entanto, há dores que nada inspiram, além do ódio e rancor.
Susana nunca foi tendenciosa a magoa, menos ainda ao sofrimento. Ela sempre foi protegida, sabendo apenas do lado bom da vida e as alegrias que a ele compete. Aos vinte e poucos anos, conheceu um rapaz. Nossa, e que rapaz. Ele brilhava. Ambos foram apresentados por seus pais, vindos de famílias distintas, não conheciam a dor, menos ainda a entendiam. Com pouco tempo de relacionamento, já eram apelidados de pombinhos apaixonados e perguntavam quando seria o casório. A menina não estava com tanto interesse nesse assunto, já o rapaz, não via a hora de se juntar com a amada.
“Vamos lá, se case comigo! Te farei a mulher mais feliz do mundo!”
“Eu já sou muito feliz da forma que estamos, querido. Além disso, ainda tenho tanto a fazer.”
“Você nunca vai conseguir alguém melhor que eu, deveria aproveitar a chance.”
“Não estou pensando em conseguir alguém melhor que você, querido, não se preocupe.”
Dessa forma seguia a relação feliz, também, possuía alguns conflitos, como qualquer casal que se preze. A menina fazia faculdade. O menino trabalhava na empresa de seu pai. Por vezes, o amante saia enfurecido do escritório em direção ao campus de Susana, acreditando fortemente que estava sendo traído, para logo se acalmar a vendo apresentar o seminário sobre o filosofo moderno Sartre, de quem tanto falava.
“Minha linda, não acha que está engordando, não? Gostaria que você parasse de jantar, para recuperar o corpo lindo que tinha quando nos conhecemos, pode ser?”
“Claro, querido, tudo por você.”
Susana se sentia como se ainda fosse uma jovem, fazia tudo o que queria e seu pais ainda a acobertavam, realmente era a liberdade que poucos tem o prazer de sentir. Até os empregados da casa repararam na jovialidade da moça, assim como relembravam os felizes dias da infância, em que corriam atrás dela e limpavam as sujeiras que fazia durante as aventuras.
“Linda, minha princesa, limpa esse esmalte, por favor? É muito chamativo, e como você frequenta a faculdade, por ter muitas pessoas, podem te ver com maus olhos.”
“Já estou as limpando, meu bem.”
Ao final do oitavo mês, houve o pedido. Finalmente eles noivaram, os parentes já não aguentavam mais ter que esperar esses jovens se acertarem para a vida toda. Fizeram festas, jantares e houve a troca de alianças, agora eles podiam dormir na casa um do outro, pois os pais já permitiam. A primeira noite foi muito agradável. Susana, o noivo e a família jantaram, enquanto conversavam e riam. Para dormir, prepararam um quarto de visitas para o rapaz. Uma cama grande de casal, com as melhores colchas e lençóis finos. Antes de se recolherem, a noiva levou para ele um copo de leite, e aproveitou para conversarem um pouco.
“Está confortável, meu bem?”
“Sim. Mas que história é essa de dormirmos em quartos separados?”
“Aqui em casa é assim, visitas são tratados melhor do que os próprios companheiros de moradia. Tome todo o leite, vai ajudar a relaxar.”
“Susana, eu não sou mais criança que vai dormir na casa da namoradinha e fica com vergonha de a olhar nos olhos durante esse tempo. Sinto que vocês não me levam a sério por aqui.”
“Amor, não se preocupe com algo tão bobo, nós estamos bem e temos já a data do casamento marcada. Não há porque se preocupar. Meus pais te amam como se fosse filho deles. Semana que vem vamos olhar a casa para ficarmos após o casamento, e no mesmo dia teremos degustação do bolo e dos vinhos, então desmarque os compromissos para a sexta-feira.”
“Tudo bem, você sabe que te amo, não é? Faço de tudo por você. Você é tão madura e responsável, muito mulher, parece até mais velha que eu.”
“Você está ficando com sono, vejo como está amolecendo.”
“Só tem uma coisa, você pode começar a usar roupas sem mostrar as costas?”, já conversava entre bocejos. “É que sua pele é muito linda para que qualquer um possa ver, isso já vêm me incomodando há um tempo…”
“Tudo que quiser, meu bem, tudo que quiser.” Foi a ultima coisa que escutou antes de pegar no sono.
Os sonhos que se passaram a seguir foram perturbadores. Via sua nova esposa ensanguentada, aos prantos. Será que ela sofreu um aborto? Tentava a alcançar, mas não conseguia, estava preso, ou melhor, amarrado. Olhando com mais atenção para o rosto da menina mulher que tanto presava, viu as lagrimas e soluços se transformarem em gargalhadas e urros de prazer. Ela o olhava, com seus olhos vidrados e caminhava em sua direção. Acariciou seu rosto, e sentia o hálito quente soprando em sua orelha enquanto a escutava falar.
“Querido, querido. Veja aqui que você não pode me tocar, ou melhor, nunca pôde.”
“Docinho?”
“Eu diria mais para um sabor amargo.”
Se afastou e pediu para alguém rasgar a parte de trás da camisola de seda que vestia.
“Sinto muito, amor, mas suas gracinhas acabaram. Vou ter que mostrar mais as costas, gosto mais assim. Vê essas unhas? Ficam melhores em vermelho sangue, não concorda?”
Já em estado de pavor, a cabeça rodava, já questionava o que era real e o que era imaginário. Os cheiros, os sons. Um sonho lúcido?
“Querida, sabe que te amo. Não falei por mal, é que o que eu digo é o melhor para você.”
“Amado, eu que o digo. Eu sei o que é melhor para você, para o bem de todos, você nunca mais vai falar uma só palavra sobre o que eu devo fazer. Olhe bem para essa lâmina, viu? Ela fica mais afiada quanto mais é usada. Agora eu estou arranhando a parte de trás da sua orelha, não, não se mexa, posso errar a mão e você acabaria aleijado, você não quer isso, quer? Então fique parado.”
O liquido quente descia por seu pescoço, a ferida aberta latejava e seus olhos já lacrimejavam. Isso é mesmo um sonho?
“A palavra ciúmes não existe mais em seu vocabulário, entendeu?”
Rapidamente concordou com a cabeça.
“Você me ama?”
Novamente o aceno.
“Você entendeu o que aconteceu aqui?”
“Sim.”
“Você é meu, mas eu não sou sua, tudo bem?”
“Sim, Susana! Eu sempre soube, eu te amo! Eu te adoro.”
E de repente, estava no quarto de visitas da casa de sua noiva. Acordou em um supetão. Olhou as roupas, o ambiente, e logo se recostou sobre o travesseiro novamente. Foi tudo um sonho, nada mais que isso, mas, quem estava lá para rasgar o vestido? Pensou por alguns momentos e viu o rosto de uma das empregadas. Sereno, como se visitasse a praia. Se arrepiou por alguns momentos e disse a si mesmo para esquecer aquilo. Era muito azar, o primeiro sonho lúcido que tem, é horripilante assim.
“Amor? Está acordado tão cedo, devia ter dormido mais, mas já que está aí, venha cá escolher os tecidos que estarão no salão de festas.”
Se levantou, sentindo uma forte tontura e enjoou, já avisando a ela que não se sentia bem.
“Aqui tem uma aspirina para a cabeça, pegue também uma pomada. Cortes na cabeça tem que ser tratados com seriedade. Nossa, foi tão fundo, ficará uma cicatriz. Pobre noivo, vou cuidar de você”
E lhe deu um beijo apaixonado.

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