Misericórdia da dor de viver 

Havia uma pequena vila, no interior do país, na qual estava sempre muito quente e abafado. Por essa razão, as crianças desde muito novas aprendiam a nadar. Elas eram tantas que se assemelhavam a girinos recém-nascido em brejos rasos. Elas nadavam por toda parte, onde quer que houvesse água, elas estavam lá.   

Em uma dessas aventuras, o dia todo havia passado com muita ventania morna, ocorreu de que em um horário próximo ao crepúsculo, as crianças nadavam por uma represa esverdeada, da qual ninguém sabia realmente a profundidade. As crianças mais velhas juravam que não havia como nadar até o fundo, pois já haviam tentado. Ocorreu que nesse fatídico dia, um menino desapareceu.  

Ele era alegre, carismático, mesmo que um tanto tímido e calado em certas situações. Assim, o luto durou três dias e três noites, tempos apenas de lamentos e tristezas.  

Sua melhor amiga, não chorou. Ela acreditava que ele ainda estava lá, em algum lugar, esperando ser encontrado. Ela o amava e ele a ela, sabia que ele queria a ver.  

Ao fim do tempo de luto, ela parou de nadar com as outras crianças. Sempre pensando no menino. Começou a ter pesadelos com o sumiço dele. Sonhava que nunca o encontraria. E o sonho sempre terminou da mesma forma, com ele a chamando ao seu encontro. Só assim ela conseguia passar o dia, na esperança de o ouvir no final do próximo sonho.   

Seis dias após o ocorrido, a voz já estava ficando alta, possuindo até mesmo cadência e direção.  Sete dias depois, ele a puxou pela mão, ou assim ela imaginou que havia acontecido. Ela se levantou da cama e seguiu em socorro do amigo.  

A Lua brilhava alta no céu, iluminava com sua luz prateada toda a superfície que podia alcançar, fazendo com que parecesse quase um dia preto e branco, sendo que tudo aquilo que ela não tocava, estava em breu completo.   

Continuou a caminhar, quando se deu conta, estava andando sobre a madeira do píer da grande represa. Chegando à ponta, instintivamente se abaixou para olhar a água escura. A Lua talvez não tenha jurisdição em represas, pensou a menina, pois não havia nem reflexo do grande satélite na superfície que observava. Olhando atentamente, viu um movimento na água, mas foi sucinto o suficiente para que imaginasse, e não ocorreu novamente naquela madrugada.   

Mais sete dias se passaram, dessa vez com ela indo toda noite para o píer. Na sétima vez que o fez, viu movimento finalmente se concretizar. Ela não havia imaginado, era o rosto do menino tentando chegar à superfície. Dessa vez, ele não desapareceu no mesmo instante. Mas aparentava tentar sair para fora da água, parecia fazer um esforço imenso. E em contraste com a falta de reflexo da represa, o rosto do garoto era quase brilhante.  

“Brincar.” Disse ele dentro da água, apenas movimentando os lábios. “Venha brincar.”   

Ela estava petrificada, espantada e esperançosa, não errou, sabia que ele estava lá. E agora queria a levar com ele.   

Viu dedos se aproximando da superfície, rompendo a estática forma que o cobria, um convite. Bastava pegar na mão que se projetava para fora da água, e poderiam ficar juntos. Hipnotizada, ela levou a pequena mão esquerda próxima a dele, mas parou no meio do caminho, sentindo o frio que ele estava exalando, ainda longe de sua pele.  

Com um olhar mais atento, viu que o vinco entre as sobrancelhas dele havia se dissipado, as mãos pareciam mais finas, os lábios também. Os olhos quase poderiam ter duas fendas em vez de pupilas, dentro de íris que outrora foram o castanho mais belo. Os cachos se dissiparam, sobrando madeixas completamente lisas em torno da face submersa.  

“Amanhã! Irei me despedir de minha família antes!” Conseguiu dizer fingindo empolgação.   

Voltou para casa, se enfiou debaixo das cobertas e chorou até o amanhecer. Ela havia errado, ele não estava lá. Aquilo queria que ela fosse para dentro do lago, talvez até que ficasse como ele. Inexpressiva, fria.  

–  

A luz do Sol iluminou o horizonte, como se permitisse que a vida tomasse conta de toda a superfície vista. Implorou para que a luminosidade fosse o suficiente para salvar o menino, mesmo com uma vozinha em seu ouvido sussurrando que não era possível, que o que foi feito não poderia ser desfeito.   

Se sentou, esfregou os olhos, olhou para as mãos. Sentia um enorme vazio no peito. Não se lembrava de outrora ter se sentido assim. Procurou com o olhar um sinal de ajuda a sua volta, mas aparentemente não havia socorro do além.   

Realizou as atividades diárias. Escovou os dentes, prendeu uma faixa sobre os cabelos, lavou o rosto e se vestiu. Pediu a benção à mãe e tomou um copo de leite. O Sol também entrava na cozinha como se a abraçasse depois de uma noite fria e desoladora. Queria um abraço como aquele, e parece que até mesmo o Tempo havia a abandonado, pois poucos minutos se passaram desde o momento em que acordara.   

“Mamãe, a senhora me ama?” Perguntou com toda a sinceridade que coube em seu pequeno coração.  

“Que pergunta! É claro que amo.” Respondeu a mãe de costas para a mesa que a menina estava, ela lavava alguns poucos talheres na pia da cozinha.   

A criança sabia que era verdade, pois ela sentia um amor tão intenso pela mãe que talvez nunca conseguisse expressar o quanto. Facilmente teve a certeza de que não poderia de forma alguma ir com o menino, não importava quem fosse, mesmo que fosse um irmão. Se ele queria a tirar de sua mãe, ele era um monstro, não mais a pessoa que conheceu.   

Se levantou decidida. Caminhou a passos firmes em direção à represa, sentindo uma brisa fria percorrer seus braços descobertos. Não se lembrava de ter sentido aquela temperatura nem nos dias de auge do inverno, nos quais nem podiam tomar sopa, de tão quentes. Passou as mãos instintivamente nos pelos arrepiados. Isso é mau agouro, pensou.   

As pernas perderam um pouco do ímpeto de momentos atrás, não tinha tanta vontade de chegar ao píer novamente. Não depois do que viu na noite passada. Aquela criatura sem fala, sem cor e sem vida estava lá. Se arrepiou de novo. Ninguém acreditaria nela, se tomasse coragem para contar a alguém, o que com certeza não ocorreria. Caminhou sobre a madeira velha, cada vez mais lentamente, na tentativa de adiar o inevitável. Que logo ocorreu.  

Se abaixou no mesmo lugar em que o fez poucas horas antes. Ele não estava lá. Não havia nem resquícios de que um dia esteve.  Mesmo assim, sabia que não havia imaginado. Um monstro estava lá embaixo, esperando para a levar para o fundo da água cor de musgo. O arrepio a percorreu novamente, sentia que ele estava lá no fundo, a observando.   

“Eu não posso ir com você!” Gritou a plenos pulmões. “Me deixe! Me esqueça!”  

Acabou por desatar a chorar novamente. Não sabia o que fazer. E se ele nunca a deixasse em paz? E se sua vida já estivesse condenada a partir do momento em que ele a chamou?  

Enquanto pensava com todo o seu desespero, levantou os olhos para o céu, se deu conta de que no auge de seus dez anos de idade, nunca havia visto uma parede de nuvens tão grande a caminho da pequena vila. Ao longe, uma massa cinzenta escura, com muitas luzes acendendo e apagando vinham em sua direção, algo semelhante trovões soava a muitos quilômetros de distância.   

Juntamente da tempestade, vinha um vento forte do que a brisa que passava poucos minutos antes. Era forte, cortante e mexia com a superfície plana da água que observava instantes atrás. Viu pequenas ondulações se tornarem quase pequenas ondas. Conforme as nuvens chegavam a uma velocidade impressionante, o Sol começou a desaparecer, até sumir por completo, deixando a região quase em um breu completo.   

“Clarice?”  

Ela escutou soprar seu nome nos ouvidos, suavemente, como um pedido de clemência. Caiu sob os joelhos, tampando as orelhas. O que está acontecendo? Por que ele me chama?  

“Não, por favor…” Sussurrou entredentes, forçando as pálpebras a ficarem fechadas, balançando os ombros, assemelhando ao ninar da mãe. “Não me chame… me deixe em paz…”  

Escutou um caminhar molhado a sua frente, já imaginando o que veria se abrisse os olhos.  

“Por favor, me escute. Eu posso fazer as coisas ficarem melhores, fique comigo.”  

Em pânico, ela espiou por entre os cílios, antes em cima dos joelhos, caiu para trás de bunda no chão. A sua frente, pingando igual a um pano de chão não torcido, estava o Menino, cinza, mas mais claro do que as nuvens acima deles. O rosto iluminado pela luz dos raios, tão frequentes quanto seriam os pingos de chuva que poderia vir a cair em um futuro muito próximo. 

Ele se abaixou a frente dela, mais alto do que um dia fora, com o rosto mais sereno do que nunca o vira. Ele não era ele, mas ainda assim, parecia bem de alguma forma distorcida e fora de realidade.   

“Você é linda desde antes de nós nos conhecermos. Sabia que nos casaríamos daqui a vários anos? Foi o que me disseram do outro lado.” Ela negou com a cabeça. “Não precisa ter medo. Você sempre vai estar comigo e eu com você. Sempre.” Tentou tocar o cabelo crespo da menina, para tentar a confortar. Ela se afastou como se fosse venenoso, mas quem poderia a julgar?  

“Por favor. Me deixe. Eu não quero ir com você.” Olhou para ele e sabia que não poderia escapar se assim ele decidisse. Enquanto isso acontecia, os raios ficavam tão intensos que não havia mais um instante no escuro, pois eles iluminavam tudo constantemente. Ainda nada de chuva.   

“Você pode não querer agora. No entanto, logo vou te buscar, para brincarmos para sempre. E não vou precisar que você queira. Você virá.”  

“Por favor!”  

O monstro frio concordou com a cabeça, dessa vez, esticou a mão e agarrou o pulso da menina que já estava esgotada por toda a situação, não conseguiu nem tentar puxar o braço de longe dele. Quando a soltou, havia uma marca verde escura no local em que momentos antes segurava.   

“Quando você não suportar mais a dor da marca, vou te buscar e te livrarei de todo sentimento, bom e ruim. Você vai existir comigo, sem dor, sem amor. Isso é para o seu bem.” Ele mergulhou na represa, as águas cessaram o movimento, os raios pararam de brilhar e gotas grossas de chuva começaram a cair.   

O braço doía. Estava com medo, apavorada. Não sabia o que fazer, nem se poderia fazer algo. Ainda sentada no píer, abraçou os joelhos e chorou embaixo da chuva, durante toda a tempestade. Ela sabia que a dor nunca acabaria, mas não conseguia se imaginar indo atrás dele. Mesmo que não fosse, de um jeito ou de outro, morreria com a marca que ele deixou em sua alma.   

– 

Acordou em um supetão. Tão suada que molhou o lençol e o travesseiro. Ainda era noite. Olhou a data no celular, ainda era a noite que havia ocorrido o sumiço do menino. Esse sonho foi um aviso? O pânico do sonho tomando novamente seu corpo, mas de forma mais intensa, por se tratar de vida real.  

Passou as mãos pelos braços e pernas, apenas sentiu algo no punho esquerdo. Iluminou com a lanterna do celular, a marca verde escura estava lá. Não conseguiu acreditar no que via, encarou o pulso, enquanto a dor subia para seu coração.  

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