A caolha, por Júlia Lopes de Almeida

Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida foi uma parte fundamental do posicionamento da mulher na literatura, além de escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira, que conta com importantes obras como A Falência e A Intrusa. Embora atualmente mais valorizada, não pôde se consagrar entre os “imortais”, pois a Academia Brasileia de Letras seguia o padrão francês em que apenas homens poderiam ter uma cadeira, a número 3 foi dedicada então ao marido de Júlia Lopes. (Mais informações em https://darkside.blog.br/julia-lopes-de-almeida-conheca-a-historia-da-primeira-mulher-da-abl/)

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Júlia Lopes de Almeida (1862-1934)

Antônio foi criado sob a alcunha de “o filho da caolha”, nome dado por garotos de sua idade que logo adotado por toda a gente. A mãe do menino era magra, alta, com braços longos, mãos grossas, uma boca caída, no entanto, o que a tornava repulsiva às vistas das outras pessoas era a cavidade do olho esquerdo, que por alguma razão havia sido removido e secretava pus constantemente.
Durante a primeira infância, Antônio enchia a mãe de beijos, começou a crescer e o beijo ficou apenas na bochecha direita, livre do asco, que logo se limitou a beijar-lhe somente as mãos. O menino pediu para que ela parasse de buscá-lo no colégio, por vergonha, mas sem que houvesse solução, abandonou a instituição. Conseguiu um emprego para logo ser mandado embora em decorrência dos apelidos e dos prejuízos que as crianças que mexiam com ele eram capazes de gerar.

O conto A caolha.


Até que durante sua adolescência, a caolha lhe conseguiu um emprego de alfaiate, e pediu ao mestre que não permitisse as brincadeiras e apelidos. O pedido foi acatado severamente, fazendo com que Antônio de sentisse confortável pela primeira vez.
Com o passar do tempo, descobriu a paixão, mas com um gosto amargo. A moça apenas iria dar a chance se ele se apartasse completamente da mãe.
Obediente e obstinado, foi até a mãe e informou que iria de se mudar para a rua em que trabalhava, mas não conseguiu enganar a mulher, que entendeu que o motivo era a vergonha.
O colocou para fora de casa. Ambos ficaram muito magoados. O jovem homem foi até a madrinha pedir por apoio, estava arrependido. A madrinha concordou, e disse-lhe que iria contar o que aconteceu ao olho de sua mãe mas na presença dela.
Lá a senhora calmamente informou que foi o próprio Antônio que perfurou o olho com um garfo quando era menor.
O menino desmaiou.

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