O celular do pai

“Cadê o celular do pai?”

“Quebrei.”

“Poxa mãe, por que?”

“Quando eu ligo ele não atende, agora pra ligar praquelas mulher ele pode. Vai ficar sem um nem outro.”

Mas Raimundo não entendeu. Olhou para a pequena Raíssa se perguntando como ela vai ver seus desenhos agora, e como ele vai assistir às aulas onlines? Enquanto pensava sobre, a mãe ia para a cozinha, fazendo barulho com movimentos bruscos, batendo os armários e as panelas.

Caminhou pela garagem estreita que não guardava um carro, olhou de esguelha para as plantinhas que a irmã estava tentando cultivar em potinhos de manteiga. Pelas grades pôde ver uma moça passando com um cachorro grande e peludo, parecia um lobo de filmes. Abriu o portão puxando a tranca, passou e o fechou a suas costas, se sentou na calçada e observou o movimento. A jovem mulher virava a esquina a esquerda, lutando contra a força do cachorro que queria confusão com outro, desaparecendo da visão.

Felipe foi falar com ele, chamou para jogar Among Us. Eu não tenho mais um celular para jogar, ele comentou. Pode jogar com o da minha irmã, ela deixa se você cuidar. Eu tenho medo de estragar, se acontecer algo não temos como pagar aqui em casa. Você quem sabe.

Continuou olhando a rua, raramente passava um carro, em frente ao final da rua tem uma mercearia, ele sempre quer comprar um pirulito, mas não tem a oportunidade. Daqui uma horas o pai chega do bar, o céu está tão azul, tudo tão seco, tudo tão difícil.

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