A menina podre

Fazendo tudo certo, honraria seus pais, sempre disseram. E ela não falhou nessa questão. Conseguia boas notas e era suficientemente tranquila, ela era tímida, coitada, nunca tinha o que dizer, a pobre menina. Passaria, no entanto, por mudanças que mudariam por completo quem era, quem um dia foi.
Ela mudou, realmente, agora tentava conversar, até fazia amigos e as vezes conseguia os manter.
“Não vá, filha”
“Sim, mamãe”
Sempre respondia dessa forma, até quando mais lhe doía, não conseguiria contrariar sua mãe, embora brasas lentas consumiam a vontade de se rebelar.
“Você está errada, filha”
“Desculpe, papai”
“Já te disse. Que. Desculpas. Não resolvem. O problema”
“Sim, senhor”
Conforme o tempo passava, mais velha ficava e também ambiciosa, mas algo ao redor seu redor sussurrava constantemente que Ícaro caiu por querer ir alto demais. Ela começou a pensar que valeria a pena cair, se chegasse ao topo.
Só houve um problema. Seu pai fazia o jantar, na ausência da mãe, ela era uma péssima cozinheira. Ao servir o próprio prato, se sentiu a mesa, agradeceu a refeição e começou a comer, mas sua língua logo negou. O arroz estava levemente azedo, a carne então? Da mesma forma, só que, carne azeda? Estava ruim. O tomate picado foi levado a boca, seu sabor como se houvesse sido pego no chão de uma feira que acabou às 14hrs. Comeu tudo, não se pode reclamar do alimento.
O que ela não contava, era com a insistência desse ocorrido, casa vez mais, os sabores se intensificaram. O leite estava azedo e a carne estava perdida.
“Papai, o que acha dessa carne?”
“Está normal para mim”
Era a resposta que obtinha.
Em poucos dias, carne estava podre, o arroz era como larvas cozidas em chorume, os tomates estavam em decomposição. Mas ninguém mais sentia.
Buscou experimentar até qual ponto isso a seguiria. Comeu uma fruta, aparência perfeita, mas estragada. Um bombom direto da fábrica, bem embalado e com uma boa validade, chocolate perdido é uma chateação, também.
Podre. Tudo estava podre. Dia após dia, se intensificava. Ela não vomitava. Parecia natural para o corpo, mas não gostava. Começou a comer menos, era desagradável, não se pode negar.
Ela sempre quis emagrecer, ficar como nos filmes, agora era a hora. Nessa mesma época apareceu um parente distante, primo de terceiro grau do neto de sua tia-avó.
“E isso é parente?”
“É parente, idiota”
Por dias eles conviveram, ele brilhava, radiante como uma pequena pedra. Tão radiante que a afetou. Ela sentiu a presença do rapaz, que depois de alguns dias, decidiu se declarar para a jovem.
Bonito, alto, carismático. Tão charmoso e estudado também. Via uma moça reprimida. Acumulada, vulnerável, pronta para se agarrar a qualquer um que a acolhesse. A queria apaixonada, fazia surpresas, carinhos. A seguia, perseguia, sugava.
Ele era radiante.
Radioativo.
Era verde, era mais podre. Mais podre do que ela, sua boca a fez querer vomitar, seu toque causava arrepios de asco. O olhar, ah, o olhar de quem te quer, de quem te quer a sete palmos do chão. Ela o odiava, ele a amava. Ele a seguiu. Ela fugiu, fugiu, fugiu.
Seus passos ecoavam pelos corredores, pelas ruas. Trotava, gritava, olhava para trás e o via, o via sorrindo, sorriso brilhante, sorriso louco. E ela corria.
Desde pequena ela quis mudança, porque essa era tão ruim? Carniça. Ele cheirava a carniça. O hálito que soprava em seu pescoço, a língua que queria tocar seu lóbulo, a decomposição.
Ele caminhava, não precisava correr, ela era tão linda correndo, gostava de apreciar o movimento de seus braços enquanto a via ir, de costas. Mas não sorriu quando ela parou. Ela lhe abriu os braços.
Com o ultimo beijo, os lábios da ricina.

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