A menina e o cavalo mentiroso

Era uma vez, uma menininha boa que sempre estava a caminhar e conversar com quem ou o que encontrasse. Sempre andando. Ela não gostava de ficar em casa, lá havia algo com o que ela não gostava de conversar. Porém, em compensação, durante suas andanças, acabava por conseguir trocar muitas ideias com os que encontrava. As vezes acompanhada de uma criança mais jovem, que possuía grandes olhos redondos e brilhantes, usando trancinhas, sempre com trancinhas, com ideias brilhantes, ela lia e fazia com que a andante lesse também, era uma peça única.
Outras vezes acompanhada do pequeno urso pardo, que falava sobre suas lamúrias e solidão, pobre urso, ela sempre pensava, em sua infantilidade, não conseguia o consolar.
Também havia o minúsculo bicho-pau, que a permanecia ao seu lado acomodado no ombro esquerdo, aconselhando a infanta e não a deixando desanimar, entre seus cochilos, pois dormia muito. Não se esquecendo da minúscula enguia que morava no lago, que em alguns momentos era uma grande amiga e em outros lhe dava choques ou nem chegava a ir vê-la quando visitada.
Difícil ficava ao final do dia, no qual ela tem que ir para casa. Sempre. Ela não gostava de ir para casa. Ela se sentia mal. Arrastando os pés em lentas passadas, em algum momento, chegava em casa. Lá havia um cavalo na metade da vida. O cavalo falava, falava e falava. Eram tantas palavras ditas que ela não mais escutava os próprios pensamentos.
O cavalo mentia, contava histórias mentirosas e chegava até a reprimir a menininha ao ser questionado. Ele a fazia perder a vontade de falar, ela queria silêncio. Toda noite, ele falava.
Pelas manhãs, quando acordava na esperança de encontrar algum de seus amigos, escutava o velho cavalo e saia ainda mais rápido de casa. Até quando o cavalo começou a querer a acompanhar por suas caminhadas, “O que você faz quando sai de casa? Conhece alguém? Me responda!”, ele falava entre relinchos impacientes. “Não vamos por aí, vamos por aqui”. Ao não ser obedecido, a puxava pelos cabelos para seguir o caminho que escolheu.
Os amigos da menininha ao a ver a certa distância, não se aproximavam, sabiam que ela não gostaria que o cavalo os conhecessem.
A menina tentou correr, mas não era rápida o suficiente, apenas restando voltar para casa. O cavalo continuava a falar. Ela ficou mais calada. Ele a seguia. Ele falava.
Anos se passaram e a menina não falou, tanto tempo que o cavalo perdeu a voz de tanto conversar e relinchar. Quando, já velha, pôde caminhar novamente, soube de seus amigos. Os grandes olhos haviam se mudado para a capital, conselheira do Governador ou algo assim, adquiriu o luxo com suas ideias. O pequeno urso pardo envelheceu com sua família e cuidava, já viúvo, de seus bisnetos. O bicho-pau apenas havia sumido, será que morreu? Pensava a garotinha que já não era uma garotinha. A enguia cresceu e fazia do lago uma potência em pesquisa e desenvolvimento do povo aquático. E ela?
Ela tentava falar, no entanto, há tanto tempo não proferiu uma palavra que se esqueceu de como o fazer. A menina não sabia mais falar, e se esqueceu de pensar. O cavalo ganhou o jogo.

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