A menina e as penas

Olha lá, aquele menino tem asas. Asas se perguntou a menina. Como é possível alguém ter asas? Ele tem, ele nasceu assim. Mas se ele tem asas, porque ele nunca voou?
Esse foi um dos primeiros diálogos que a menina teve ao se mudar para pequena Vila. O menino, como pôde observar, não passava de uma criança comum, mas porque diziam que ele tinha asas? Com o tempo descobriram que nem a menina era alguém agradável de estar por perto, rapidamente sendo excluída por todos seus colegas e vizinhos.
“Para com isso!”
Foram as foram as principais falas que a menina escutou semanas após sua chegada. Após algum tempo, voltando da escola para sua casa, a menina encontrou uma pequena carteirinha de identificação. Ler o nome eu acho nome mais encantador que já havia visto na vida, a foto por sua vez, era do menino passarinho. O problema era que o dia seguinte já não haveria aula, mas sim o início do recesso escolar.
Os primeiros dias foram entediantes, até o momento em que a mãe mandou que ela caminhasse para conhecer o terreno em que moravam, e sem querer discussão com a progenitora, a menina calçou um tênis e saiu logo após o café da manhã. O lugar era bem aberto, com arvores espaçadas e muitas folhas secas caídas, que ao caminhar sobre elas não conseguia deixar de lembrar das cascavéis que poderiam estar por baixo delas.
Alguns minutos perambulando, encontrou uma cerca que dava para um campo de capim baixo. Sem hesitar, a criança passou por baixo do arame farpado e continuou avançando, apenas havia visto campos abertos em filmes.
Minutos depois encontrou com o menino que diziam ter asas depois de alguns troncos de arvores muito altas.
“Sabe que não pode entrar aqui, né?”
“Não faz mal, só estou de passagem. Já que estou aqui, me mostre suas asas.”
“Eu não tenho asas.”
“Todos dizem que tem, se não tem asas, tem algo diferente.”
“O diferente causa medo.”
“Eu tenho asco do normal, eu mesma me sinto esquisita quase a todo momento.”
“Isso faz de você diferente, ao menos sentindo.”
Ele olho para os olhos da menina por alguns instantes em desafio.
“Se você quiser, tome de mim.”
O menino tirou a camisa e abriu as asas. Enormes, grossas, saindo da ponta das escapulas, era o dobro da altura das crianças. Brancas, alguém que visse de longe poderia jurar que elas possuíam brilho próprio. Se passaram segundos entre a revelação e o bater delas. O menino disparou para cima da colega e a levantou pelos ares.
“As pegue para você! As pegue para você!”
Ela se debatia e gritava, enquanto ele subia e subia, rapidamente chegando ao topo das grandes arvores que vira mais cedo. Esse menino não regula da cabeça, era a única coisa que pensava.
“Você tem uma benção!”
“Pegue essa benção para você! Não o quero!”, ele berrava.
Ele iria a soltar, isso era óbvio para quem olhasse. Ela se enfureceu com a fúria do outro, o agarrou pelo pescoço de forma desajeitada, alcançou a asa esquerda e a puxou. Estavam alto demais, coberta de medo e raiva, a menina revivia os que a levou até aquele momento e nada era memorável. Puxou com mais força, mas para sua decepção, ela não era removível. Continuou a puxar e o menino a se debater, agora aos urros. Começou a cavar com as unhas as bases das asas, usara de tal força bruta que com diferença de poucos milésimos, arrancou as duas, a esquerda e a direita.
Quando a queda foi iniciada, o menino abriu os braços e tentou voar.
“Me devolva! Ladra! Me devolva.”
“São minhas! O que se dá não pode tomar de volta.”
Ela se abraçou com as asas em mãos, tentando as colocar nas próprias escapulas. Não as sentindo agregarem ao corpo, permaneceu com as mesmas nas costas e virou seu corpo olhar o céu. Ver as arvores novamente pela visão periférica, sabia que o momento do fim chegava. O garoto caiu antes, o som arrepiou o corpo inteiro da menina, aquele era o som da morte crua, que veio levar o pobre odioso.
“Eu vou amar vocês! Me salvem!”
Um sussurro mais para si do que qualquer outra coisa. Ela gritou quando sentiu a queda, ou melhor, a fusão da carne com a carne. Mais intenso. Não era a carne, eram os ossos. Doeu com o que poderia ser a dor de morte. E ela abriu os olhos, estava viva.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s