A menina que corria

Em vários cantos, há várias meninas, essas várias meninas possuem algo em comum, o medo. Tanto que a menina se identificava com as outras, mesmo sendo um pouco diferente delas, também por esse motivo. Ela via tantas coisas ruins e presenciava outras das quais não conseguia ao final do dia. A menina precisava, ou ao menos sentia, que devia procurar um esconderijo. Algo tão bem escondido quem nem a Cuca poderia a encontrar.
Após suas inúmeras fugas, sempre correndo, ela conseguiu um bom lugar em que nunca seria achada. Ou ao menos era isso que pensava. O lugar era suficiente para que apenas ela ficasse lá. O problema era que precisava sair às vezes, e seus pais a encontravam. Pobre menina, nesses momentos, ela não conseguia correr. O sangue escorre pelas costas e deixam a camisa ensopada, as cicatrizes por cima de cicatrizes. Outro problema grave é que ela carregava as dores de todas as meninas do mundo, então podemos a chamar de A menina. Seus Pais eram o Amor e o Carrasco, os polos de dois extremos, com ela em fusão entra ambos, e um dia ela teria que ser mãe, seria a Mãe da próxima menina, não por querer isso, mas era seu destino, sua função primordial desde o nascimento, assim como há um Pai crescendo em algum lugar, carregando provavelmente todos os Carinhos do mundo. Ela já o invejava por seu privilegio de boa vida.
A Menina, mesmo assim, tentava de tudo para não ter que seguir para aquela vida, pois nenhum destino seria capaz de a segurar. Seu esconderijo, que mais virou seu lar, não possuía dois metros quadrados de área, mas era seu mundo todo. Lá ela limpava suas feridas, dormia, lia, pintava e observava a vida cotidiana de humanos. Ela via muitas meninas, algumas demasiadamente corajosas e outras cansativamente covardes, mas todas tão únicas. Pensava se era única daquele jeito, de seus próprios jeitos.
Ela viu de lá, uma menina que roubou asas e se tornou livre, pois o detentor não queria voar. Uma menina que enfrentou uma enorme Paixão e sobreviveu, mesmo que para ela tenha sido uma experiência de quase morte, visto de longe pareceu bobeira, pensou que só quem viveu entende o que aconteceu de verdade. Encontrou uma menina Podre que ficou sozinha, mas muito mais feliz do que estava antes, pensou que a podridão dela seria boa para a própria vida. De tantas histórias, invejou que a sua não seria contada, então enquanto eu mesma a observava, decidi escrever a dela.
A Menina em si, ao carregar todas as dores, também possuía todas as cores, todas as formas, todos os tipos de meninas, mas seus genitores acabaram por cortar os bons sentimentos que poderia carregar dessas mesmas meninas, talvez dessa vez o Carrasco tenha ganhado, já que o Amor nunca interveio.
Eu já vi a Bondade ganhar, mas infelizmente, ultimamente vejo a Maldade dominar as criações de novas divindades, minha mãe sempre disse que somos o reflexo da humanidade, é daí que vem o que fazemos.
Enquanto assistia a um dos acontecimentos entre os humanos, seu Pai encontrou, finalmente encontrou o esconderijo, e não foi bom. Ela nunca mais assistiu a qualquer menina conseguindo sobreviver às suas lutas, isso por ele ter retirado permanentemente a visão dela. Ele a vigiou até o dia de a entregar para ser Mãe. Isso aconteceu recentemente, mas eu ainda não tive coragem de ver como ela está.

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