Metamorfose da sobrevivência

Ela deu a seta, entrou na rodovia sem dificuldade, passando a segunda marcha, acelerando, passando a terceira, acelerando, passando a quarta, acelerando. Pensava que precisava calibrar os pneus carecas logo no início da viagem, eles poderiam murchar até rasgar entre o aço e o asfalto, ou se estivessem cheios demais, estourar e a matar em um acidente fatal, ambos os casos seriam uma dor de cabeça. Na rádio passavam as melhores músicas sertanejas dos anos 90, das quais ela foi criada escutando, o tema do momento era relações não superadas, ainda em seus corações.
Eu sou sozinha? Um pouco, talvez, tenho medo de errar, com certeza. Eu quero estar sempre sozinha? Disso ela não tinha certeza. Muda de faixa. Ultrapassa, volta para a faixa da direita. Às vezes ela tinha medo. Apenas medo. Não medo por seu físico, mas por sua moral. Mas como a moral? A moral de si para consigo mesma, é uma das coisas que mais doem e afligem. Ela queria ser bem sucedida, mas era vista como materialista. Ela pensava em se preparar para o futuro, mas era chamada de preocupada. Outro dia viu em uma propaganda de banco que o futuro é algo que não sabemos o que tem, mesmo assim, comemos brócolis para esse mesmo futuro.
Ela considera a ideia do brócolis o cultivar de uma semente, assim como uma ideia ou empreendimento. Deve começar do começo, como dizem popularmente. Diminuiu a velocidade, estava ultrapassando os 120 km/h.
Preciso mudar de faculdade, me esforçar mais, me preparar, assistir alguns cursos, ser respeitada, vender, fazer, aprender, falar, agir. Preciso agir.
Muda de faixa para ultrapassar, acelera, faz a curva sinuosa, ultrapassa, volta para a faixa da direita. Eu sou patética, com certeza muito patética, patética e sozinha. Será que em algum momento vou mudar isso? Será que em algum momento vou conseguir conversar? Cadê a confiança que os personagens das séries têm que eu não tenho? Ela se esquece de que os personagens não passam disso, personagens, por muitas vezes idealizados e com defeitos suavizada, acabando com o senso de realidade de humanidade alheios. Ela precisava realmente era se compreender e aceitar da forma que é, dirigir melhor também.
Talvez um amor. Um amor seria bom. Eu sinto falta dos que já foram? Eles por acaso não foram superados? Não, não acho. Talvez falta de se sentir apaixonada, seria melhor empregado dessa forma. É realmente triste passar meses e anos após um término sem o superar completamente, com certeza não é isso.
Preciso dormir mais cedo, preciso fazer exercício, preciso parar de comer industrializados, preciso ler mais. É tão difícil ter tantas coisas para fazer. Por que preciso tentar ter aprovação alheia? Talvez eu seja insuficiente.
Ela pensava bastante, ao mesmo tempo que cantava as canções de amor sem nem mesmo prestar atenção no que os lábios diziam.
Mas acho que consigo, se não surtar no caminho. Preciso mudar de curso, será que consigo? É tanta coisa pra pensar. Acelera, faz a curva, fica na faixa da esquerda, pega o retorno, acelera, vira a direita, cuidado com as lombadas.
Não posso pensar que sou pateta, se não, como vão me ver de fora? Apenas queria desistir de tudo.
Desistir do que, se ela tinha um total de zero conquistas? Não exatamente zero, mas poucas, talvez não tão poucas. Mesmo que eu as enumere, ela não consegue as ver. Então do que adianta eu insistir?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s